Investimento

Private Credit em 2026

O que está acontecendo no mercado de crédito privado americano e o que esperar

14 Apr 2026

Nas últimas semanas, o mercado de Private Credit voltou a dominar as manchetes financeiras e dessa vez  por motivos menos nobres. Gestoras de grande porte, como Morgan Stanley, BlackRock e Blackstone, bloquearam resgates em seus fundos de crédito, ações de grandes gestoras de ativos alternativos derreteram  entre 30% e 50% em relação às suas máximas por causa de preocupações com o setor e o JPMorgan reduziu  o valor de empréstimos ligados a empresas de tecnologia que representam uma parcela relevante das  carteiras de crédito privado e estão entre os ativos mais afetados pelo atual estresse do setor. 

O que é Private Credit  

O Private Credit é uma forma alternativa às rotas tradicionais de financiamento, uma maneira de captar  recursos sem recorrer à emissão de ações a partir da venda de uma fatia do negócio e nem a empréstimos bancários convencionais. Essa estratégia cresceu significativamente a partir da crise financeira de 2008,  quando os grandes bancos passaram a ser mais regulados, abrindo espaço no mercado de crédito para novos  participantes. A modalidade mais comum do Private Credit é a de Direct Lending, em que o fundo de  investimento empresta capital diretamente à empresa tomadora, eliminando a intermediação bancária. 

O perfil típico de quem toma esse crédito são empresas de médio porte, o chamado middle market, com  faturamento relevante, mas que não têm acesso fácil aos mercados públicos de dívida. Para os investidores  dos fundos de Private Credit, a atratividade está nos retornos maiores do que os de títulos tradicionais (o  prêmio pela menor liquidez costuma girar em torno de 2% ou até mais) e no fato de que as taxas dos créditos 

costumam ser pós-fixadas, o que reduz a sensibilidade a variações de juros. Nos últimos anos, até empresas  de grande porte passaram a captar no mercado de crédito privado, atraídas pela agilidade com que os fundos  analisam e emprestam o dinheiro. 

Os acontecimentos mais recentes do mercado  

Para entender o que está acontecendo hoje, é importante conhecer três instrumentos centrais desse mercado. 

O primeiro são os Business Development Companies ou BDCs. Um BDC é, de maneira simplificada, um fundo  de investimento listado em bolsa que empresta dinheiro para empresas de médio porte. Pela lei americana,  ele precisa distribuir pelo menos 90% do seu lucro aos investidores, o que costuma atrair tanto investidores  pessoas físicas quanto institucionais (fundos de pensão, gestoras de recursos e de patrimônio etc.). 

O segundo são os Fundos Evergreen, que ganharam bastante popularidade no mercado de investimentos  ilíquidos, principalmente no Private Credit. Esse tipo de fundo investe em ativos ilíquidos, mas dá a  possibilidade de investidores resgatarem seus investimentos trimestralmente, desde que o fundo não tenha  um pedido de resgate acima de um determinado volume, mecanismo chamado de Fund Level Gate (FLG).  Para ilustrar: imagine um fundo com R$ 100 milhões em ativos ilíquidos, se o gestor aceitar resgates ilimitados,  pode ser forçado a vender ativos a preço de liquidação, prejudicando quem permanece no fundo. O gate impede isso, funcionando como uma válvula de segurança.  

O terceiro elemento crítico é a concentração do mercado de crédito privado ao setor de software. Segundo  estimativas do Morgan Stanley, empresas de software representam 26% dos ativos de BDCs americanos. Essa concentração não foi por acaso: o setor sempre foi conhecido por seu modelo de receita recorrente, que  criava um fluxo de caixa resiliente e dava conforto para empréstimos, mesmo que a empresa possuísse um  determinado nível de alavancagem em seus negócios. 

O problema é que o setor está passando por uma disrupção sem precedentes causada pela inteligência  artificial. Ferramentas de IA estão substituindo funções que antes justificavam contratos caros e estáveis com  empresas de software. Empresas que antes cobravam por vagas de atendimento ao cliente, por plataformas  de recrutamento, por programas de análise de dados: todas estão vendo seus modelos de negócio  questionados em tempo real. Na bolsa americana, o índice de ações atrelado a empresas de software caiu  cerca de 30% nos últimos meses, de volta aos níveis de 2021. 

Fonte: Bloomberg

Para os credores, o problema é duplo. Primeiro, a capacidade dessas empresas de pagar suas dívidas fica comprometida quando a receita encolhe. Segundo, essas empresas foram financiadas com um alto nível de alavancagem: a mediana de dívida sobre EBITDA (resultado operacional) do setor é de 8 vezes, o que a coloca como a maior entre todos os setores da economia (Morgan Stanley). Com uma margem de segurança assim tão estreita, qualquer deterioração de resultado afeta rapidamente a capacidade de pagamento dessas empresas. Nesse contexto, o banco americano projeta que o nível de inadimplência no setor de BDCs pode chegar a 8% (valor próximo do pico observado em 2020, durante a pandemia do COVID-19).

Fonte: S&P, Pitchbook | LCD, Morgan Stanley Research.
[1] Empréstimos sindicalizados são empréstimos concedidos por um grupo de credores em conjunto, em vez de um único banco ou instituição, geralmente para diluir o risco de operações de grande valor.

Os resgates e os gates ativados

Com o aumento do receio no mercado, investidores passaram a solicitar resgates em volumes mais altos. Quando esses pedidos ultrapassaram os limites definidos pelos gates contratuais, os gestores bloquearam os saques para evitar a venda forçada de ativos ilíquidos, o que poderia destruir valor para os cotistas remanescentes.

Esse cenário provocou atuações como a do Morgan Stanley, que limitou resgates em seu fundo North Haven Private Income Fund após investidores tentarem resgatar aproximadamente 11% do patrimônio, e a da BlackRock, que fez o mesmo com seu fundo HPS Corporate Lending Fund ao receber pedidos de resgate de 9,3% do patrimônio. A Cliffwater (gestora com US$ 33 bilhões em seu principal fundo) limitou resgates a 7% após pedidos de 14% e a Apollo travou resgates em seu fundo de US$ 25 bilhões após pedidos de resgate na casa de 11%. Outras gestoras foram ainda mais restritivas, como a Blue Owl, que suspendeu completamente os resgates em um de seus fundos.  

Tais sinais são relevantes e demonstram que a indústria está preocupada com os possíveis exageros em valuation desses empréstimos. O aumento de expectativa de defaults é reflexo direto disso e ainda podemos ter um período de notícias muito negativas sobre o setor.  

O que esperar daqui para frente?

Um primeiro ponto bastante relevante é o que Bill Dudley, ex-presidente do Federal Reserve de Nova York, argumentou em seu artigo recente publicado sobre o setor: os problemas de Private Credit são reais, mas estruturalmente diferentes dos que ocorreram na crise financeira de 2008. Atualmente, os fundos não estão usando endividamento de curto prazo para financiar ativos de longo prazo. Os ativos são ilíquidos, mas os gates atuam como mitigador para evitar vendas forçadas e conter um efeito manada de resgates. Ainda assim, talvez o grande problema da indústria tenha sido vender esses ativos como líquidos para pessoas físicas, dado que os gates já faziam parte do contrato desses fundos.

Além disso, apesar de esses eventos recentes gerarem impactos relevantes para a indústria, o mercado financeiro tem capacidade de absorver os choques atuais. O exemplo de Rick Rieder, gestor de renda fixa da BlackRock, é uma boa ilustração disso: o mercado de Private Credit tem exposição a software de cerca de US$ 400 bilhões, supondo um cenário extremo, de 25% de inadimplência e recuperação de apenas 20 centavos por dólar, a perda seria de US$ 80 bi, o que é um número expressivo, mas pequeno diante dos US$ 18,7 tri em depósitos bancários americanos ou dos US$ 232 tri em patrimônio líquido do setor privado americano.  

Isto posto, a maior preocupação gira em torno dos recentes exageros na classe, os quais podem trazer maior dispersão para os ativos de crédito nos Estados Unidos, tanto no escopo público quanto privado. Em períodos como este, a seleção criteriosa de gestores e a diversificação das estratégias deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos. Com base nessa convicção, a Wright mantém sua exposição a crédito por meio de gestores com foco em valor relativo, baixo beta e carteiras amplamente diversificadas. Olhando para nosso portfólio, gestores começaram o ano com exposição baixa a software. Dito isso, em sua grande maioria, os fundos registraram impactos praticamente nulos, com um bom posicionamento para explorar oportunidades que surgem em cenários de estresse. Tal posicionamento, contudo, não nos exime do acompanhamento rigoroso dos desdobramentos do setor, o qual seguimos monitorando com atenção.

Fonte: BlackRock/Rick Rieder. Elaboração Wright Capital.

REFERÊNCIAS

BLACKROCK. RIEDER, Rick et al. Investing in 2026: AI, the Middle East, and Income. Nova York: BlackRock, 26 mar. 2026. Disponível em: https://www.blackrock.com/us/financial-professionals/insights/ai-war-and-income. Acesso em: 14 abr. 2026.

DUDLEY, Bill. Private credit is bad, but not 2008 bad. Bloomberg Opinion, Nova York, 18 mar. 2026. Disponível em: https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2026-03-18/private-credit-is-bad-but-not-2008-bad. Acesso em: 14 abr. 2026.

FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL. Departamento de Mercados Monetários e de Capital. Fast-growing $2 trillion private credit market warrants closer watch. Washington, D.C.: IMF, 8 abr. 2024. Blog baseado no capítulo 2 do Global Financial Stability Report: The Last Mile: Financial Vulnerabilities and Risks (abr. 2024). Disponível em: https://www.imf.org/en/blogs/articles/2024/04/08/fast-growing-usd2-trillion-private-credit-market-warrants-closer-watch. Acesso em: 14 abr. 2026.

MORGAN STANLEY RESEARCH. JIANG, Joyce et al. Private credit tracker 4Q25: as the credit cycle turns. Nova York: Morgan Stanley, mar. 2026. Relatório de pesquisa institucional restrito.

SAINI, Manya. Morgan Stanley restricts redemptions at private credit fund after withdrawals surge. Reuters, Bengaluru, 11 mar. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com. Acesso em: 14 abr. 2026.

TULLY, Shawn. The $265 billion private credit meltdown: how Wall Street's hottest investment craze turned into a panic. Fortune, Nova York, 14 mar. 2026. Disponível em: https://fortune.com/2026/03/14/private-credit-meltdown-how-wall-streets-blackstone-kkr-apollo-ares-blue-owl-investment-craze-panic/. Acesso em: 14 abr. 2026.

WRIGHT CAPITAL. Private credit: uma revolução no mercado. [S.l.]: Wright Capital, set. 2025. Disponível em: https://www.wright.capital/private-credit-uma-revolucao-no-mercado/. Acesso em: 14 abr. 2026.

YAHOO FINANCE. Morgan Stanley caps redemptions at private credit fund. Yahoo Finance, [S.l.], 11 mar. 2026. Disponível em: https://finance.yahoo.com/news/morgan-stanley-caps-redemptions-private-205727090.html. Acesso em: 14 abr. 2026.

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