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Economia

Wright Capital: Fundos de impacto ajudam a separar joio do trigo ESG, explica a sócia Fernanda Camargo

Os clientes da gestora de ativos estimados em R$ 8 bilhões investem de 1% a 4% do patrimônio em projetos de impacto real e mensurável, mostrando o caminho para a resolução de problemas socioambientais de longo prazo, explica Fernanda Camargo, sócia-fundadora da Wright Capital e membro do Conselho da Fundação Grupo Boticário

Integridade ESG
26 jun 2025
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Autoria de  Cintia Salomão

A economia global se encontra em meio a uma dramática convulsão estrutural e deve exigir investimentos para construir a transformação. Governos possuem cada vez menos condições políticas para resolução de tais questões, e o terceiro setor, por mais que se esforce para preencher as lacunas existentes, não tem recursos suficientes. O setor privado tem que participar.

Com essa constatação, a gestora de patrimônio Wright Capital justifica a urgência global dos chamados investimentos de impacto em seu Relatório de Impacto 2024.

Fernanda Camargo, sócia-fundadora da gestora de capital, membro do Conselho da Fundação Grupo Boticário e diretora da Anbima (Associação Brasileira das Entidades de Mercado Financeiro e de Capitais), com experiência de 23 anos em gestão de patrimônio, diferencia de maneira enfática os fundos ESG dos fundos de impacto, embora os investimentos de impacto possam ter fortes correspondências com os investimentos ESG.

“Entendemos que essa não é uma mudança de curto prazo. Trata-se de uma mudança sistêmica, que demora de 20 a 40 anos para acontecer. É diferente de colocar um selo ou uma capa verde para ganhar um bônus no final do ano”

“Os fundos de impacto buscam investimentos em empresas que têm como objetivo resolver problemas sociais e ambientais — e que precisam medir as mudanças. Já a agenda ESG trata de medir riscos climáticos, trabalhistas e de governança. Ou seja, o ESG está no core dos negócios, trata de medir riscos materiais e varia de acordo com o setor. Mede externalidades e o risco dessas externalidades e como esta no centro dos negócios, a mudança costuma custar caro, leva tempo e exige mudança de mentalidade da liderança”, esclarece em entrevista ao Integridade ESG.

Desde que foi criada, a Wright Capital estabeleceu como regra que  pelo menos 1% do patrimônio dos clientes seja investido em fundos de impacto socioambiental. Hoje, suas dezenas de clientes, entre famílias e institutos, continuam seguindo essa regra.

“No início da relação começamos com 1%. Ao longo do tempo, isso foi crescendo para 2 a 4%, com clientes que querem mais… Conforme o mercado vai evoluindo e mais oportunidades vão surgindo, aumentamos o percentual. Já nascemos em 2014 assim, com esse compromisso, reunindo empresas que compartilhem desse olhar. Ainda não há fundos suficientes de impacto para investir o patrimônio inteiro; isso vai levar décadas, mas chegaremos lá um dia”, comenta a economista, que também é membro do Instituto Clima e Sociedade (ICS).

Ampla gama de fundos de impacto

O trabalho da Wright — certificada como empresa B — envolve esforços de advocacy, além de conversas com gestores, órgãos regulatórios, agências de fomento e bancos de desenvolvimento. As alocações podem envolver investimentos em uma série de fundos específicos, como Vox Tech for Good Growth, MOV II, Positive Ventures DIF II, GEF, Rise Ventures e FIDC Estímulo.

Os fundos de impacto devem estar baseados em três pilares: a intencionalidade, ou seja, deve ter o objetivo de gerar impacto socioambiental positivo e de resolver um determinado problema, desde o início; o retorno financeiro positivo, o que significa que devem gerar retorno financeiro sobre o capital investido ou no mínimo o retorno do principal; e o impacto mensurável, medido de modo claro e explícito.

“Os juros altos sequestram os fundos, que ficam no CBD, impactando negativamente os investimentos verdes, sendo mais prejudiciais do que a onda antiwoke para a agenda sustentável brasileira”

Empresas investidas pelo fundo Vox Tech for Good Growth, por exemplo, geraram R$22 bilhões em transações financeiras para um mercado que não tinha acesso. O fundo também evitou a emissão de 7,7 mil toneladas de CO2 no agronegócio e na alimentação, enquanto a investida da Mov Investimentos protegeu 2,5 milhões de hectares e evitou emissão de 11,4 milhões de toneladas de CO2. Outra investida do Yunus Negócios Sociais possibilitou que 16,2 mil alunos tivessem acesso a plataformas de educação e outros 103mil alunos concluíssem cursos de mecânico. Todos os projetos são mensurados — fator crucial para a gestão de um fundo de impacto.

“Entendemos que essa não é uma mudança de curto prazo. Trata-se de uma mudança sistêmica, que demora de 20 a 40 anos para acontecer. É diferente de colocar um selo ou uma capa verde para ganhar bônus no final do ano. Temos um entendimento de que questões, como o lado social do Brasil, precisam mudar no longo prazo —, e não só pelo lado climático, mas principalmente pelo lado social. É importante entender como você consegue, através de soluções de negócios, resolver grandes problemas sociais e gerar oportunidades”, resume.

Separação do joio e do trigo

A partir de 2027 será mandatório pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) que as empresas mapeiem e divulguem os seus riscos climáticos e digam o que que elas estão fazendo para resolvê-los, lembra Fernanda, impactando de forma intensa a agenda ESG corporativa e os chamados fundos sustentáveis.

“Já os fundos de impacto são diferentes. Podemos ter uma empresa de impacto que não mede o ESG e o mesmo impacto que mede o ESG. Porém, o ESG virou um auê, envolvendo questão política e greenwashing etc. Misturou-se tudo. Então, temos que ‘desmisturar’. Uma coisa é risco. Outra é oportunidade, é investimento, é como você resolve as questões”.

Os fundos de impacto são destinados à resolução de problemas de educação, inclusão financeira, moradia, acesso a microcrédito, redução de repetência escolar, enfim, um “zilhão de investimentos que podem ser feitos”, define.

Nessa confusão em torno do movimento verde, “muitos se vestiram de capa verde sem fazer nada”, constata.

“A discussão foi capturada pelo lado político e ficou rasa. E, no final da história, os eventos climáticos não vão deixar de acontecer por causa da política”, acrescenta a cofundadora da Wright.

Mais regeneração agrícola e menos juros

Para a economista, os investimentos verdes no Brasil deveriam estar concentrados no uso da terra e na atividade agropecuária, as maiores fontes de emissões de carbono do país, e não no setor de energia.

“O nosso foco deve ser reflorestar e regenerar com soluções baseadas na natureza. É importante ficar repetindo mil vezes por dia que mais de 80% da nossa fonte de energia é limpa. Então o país não deveria ficar tão preocupado com a transição energética. Nesse sentido, a maior parte do investimento deveria ir para a regeneração de pastagens degradadas. Mas, no mundo, o cheque para a transição energética é alto. Por isso, muitos pensaram: Vou para esse lado por causa desse cheque”, avalia a cofundadora da gestora de patrimônio.

Para Fernanda, que é membro do Latimpacto e do Instituto Cactus, a onda antiwoke vinda do Estados Unidos traz menos prejuízos à agenda ambiental brasileira do que a atual taxa de juros praticada no país.

“Muitas empresas, com medo do que está acontecendo nos EUA, estão mudando os nomes dos seus programas de inclusão ou até reduzindo-os. No entanto, a principal questão não é essa, e sim a alta taxa de juros que sequestra todo o investimento e que fica no CBD, impactando de forma negativa o investimento verde”, alerta ela, que trabalhou no Standard Bank, Deutsche Bank no Brasil e no Private bank da Merrill Lynch em São Francisco, Califórnia.

R$ 8 viram sementes de um futuro melhor

Ao realizar gestão de patrimônios somados e avaliados em torno de 8 bilhões de reais de 50 clientes que toparam aplicar 1% dos seus patrimônios em fundos aplicados na resolução de problemas socioambientais, a Wright Capital está mostrando às classes dirigentes que investir no bem-estar social é o caminho certo, acredita Fernanda Camargo, sócia fundadora da gestora de capital.

“Você planta a semente, mas não tem controle de como ela vai brotar e crescer lá na frente. E só nasce em solo fértil. Vamos seguir plantando sementes, e torcer para gerarem bons frutos. E foram frutos incríveis até agora”, finaliza a especialista em gestão de patrimônio.

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