Como atrair o capital de finanças climáticas para o Brasil?

A ciência da mudança climática é clara: somente uma ação coordenada e convicta irá prevenir consequências desastrosas para a população e a economia mundial. Se continuarmos fazendo (quase) nada para cortar as emissões globais em 50% até 2030, não vamos conseguir limitar o aquecimento global a 1,5°C. Isso parece pouco, mas já causaria um sofrimento humano incalculável e prejuízos na ordem de centenas de trilhões de dólares, desestabilizando economias, especialmente países em desenvolvimento.

Segundo estudo da McKinsey, atualmente cerca de 80% do investimento privado em infraestrutura em países de renda média e baixa foi nos setores de energia não renovável e transporte. Globalmente, esses setores estão entre os maiores emissores de CO2. E embora as indústrias de combustíveis fósseis tenham gerado a maior parte da riqueza para investidores privados nas últimas duas décadas, elas estão prestes a se tornar menos atraentes à medida que o esforço global para descarbonizar incorpora metas de carbono zero nos planos econômicos de muitos países.

Precificação do carbono: oportunidade ou custo?

Você consegue imaginar como vai ser a vida num planeta mais quente, menor e com mais gente? Hoje somos 7,7 bilhões de seres humanos. Apesar do ritmo do crescimento populacional mundial estar diminuindo, ainda crescemos em torno de 1,1% a cada década e devemos chegar a 9,7 bilhões de pessoas em 2050.

A grande questão é o estilo de vida de grande parte dessas pessoas, o quanto ele consome de recursos naturais e quanto gera de emissões de gases de efeito estufa.

O pequeno príncipe, a COP26, o nosso planeta e a natureza humana

Esses dias fui assistir meu sobrinho, Guigo Farias (@fariasguigo) no papel do Pequeno Príncipe no Tom Brasil. Aliás, recomendo a todos. A peça foi criada pelo projeto Do Singular ao Plural (@singularaoplural) que busca realizar uma apresentação cênica musical com participação de várias pessoas da população em geral.

“O Pequeno Príncipe” de Saint Exupéry, escrito em 1943, é considerado um livro infantil, mas é uma obra prima que reflete a vida a partir de coisas simples, mas ao mesmo tempo muito filosófica. A cada leitura o livro gera reflexões diferentes, depende da fase de vida e do nosso entendimento sobre nós mesmos.

A equidade racial e o ESG brasileiro

Em seu último livro, “A Tirania do Mérito”, o professor de filosofia política da Universidade de Harvard Michael Sandel debate porque a crença de que o esforço individual é o grande motor do sucesso somente amplia o abismo social, estimula a polarização e impede que as sociedades sejam mais solidárias. No preenchimento de vagas de emprego, mérito conta por dois motivos: eficiência e justiça. Seria errado discriminar o mais qualificado com base em preconceito de raça, religião ou sexo. Um sistema econômico que recompensa o esforço e o talento tem a probabilidade de ser mais produtivo. A ideia de que nosso destino está nas nossas mãos, que nosso sucesso depende só de nós, afirma certa ideia de liberdade.

Segundo Sandel, apesar de inspirador, o princípio do mérito pode tomar caminhos tiranos. O lado negativo do ideal meritocrático está embutido em sua promessa mais sedutora, a de domínio e a de vencer pelo próprio esforço. Uma coisa é responsabilizar as pessoas por agirem de acordo com a moral, outra coisa é pressupor que somos, cada um de nós, totalmente responsáveis por nossa sina. Na visão contemporânea, riqueza significa talento e trabalho árduo e pobreza significa apatia. Aqueles que defendem a desigualdade com base na meritocracia ignoram que certos talentos – decisivos para o sucesso em diversas áreas – e o fato de eles serem valorizados em uma certa sociedade não são mérito de quem os possui, e sendo assim, pensar no mérito como um critério de justiça seria algo falho.

Precisamos de um ESG brasileiro

O lugar em que você fica de pé depende de onde você está sentado, dizia Rufus E. Miles Jr. (1910-1996). Ele foi assessor de presidentes como Dwight Eisenhower, John Kennedy e Lyndon Johnson. De “memoráveis encontros com a realidade”, ele criou a Lei de Miles. Ele codificou o que deveria ser intuitivo. Nós vemos as coisas e fazemos julgamentos a partir do nosso ponto de vista.

Quando procuramos notícias e artigos sobre ESG (acrônimo para ESG – Environmental, Social and Governance ou ASG – Ambiental Social e Governança) encontramos: Nós precisamos reduzir as emissões de gases do efeito estufa, nós precisamos fazer uma transição energética, nós precisamos fazer uma revolução verde, etc… Quem somos “nós”??

Se mudarmos nossos hábitos podemos “adiar o fim do mundo”?

No início deste ano, tive o privilégio de participar de uma conferência com o líder indígena, escritor, jornalista, professor e doutor pela Universidade de Juiz de Fora, Ailton Krenak.

Ailton nasceu na região do vale do rio Doce, um lugar cuja ecologia encontra-se profundamente afetada pela atividade de extração mineira.

Durante a conferência, alguém perguntou sobre o lixo. “O que é lixo?? Não existe lixo. Vocês falam sobre jogar o lixo lá fora. O que é lá fora?? Não existe lá fora. É tudo aqui dentro. Vocês estão jogando lixo na sua casa.” – respondeu Krenak. Esse olhar já nos faz refletir sobre nosso estilo de vida, nossas crenças e nossos valores.

Nos anos 60 e 70 a configuração antropocêntrica da nossa pedagogia tornou natural a exploração ambiental. Criamos um abismo entre o homem e outros seres. A educação do século XX separou cultura e natureza. Krenak explica que quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista.

No seu livro “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, Krenak critica a ideia de humanidade homogênea na qual há muito tempo o consumo tomou o lugar daquilo que antes era cidadania. Segundo ele, transformamos as pessoas em consumidores e as crianças já nascem clientes.

Cada vez mais investidores querem impacto, além de lucro

Para Fernanda Camargo, cofundadora da gestora de patrimônio de grandes fortunas Wright Capital, o interesse em dedicar recursos para negócios de impacto já é maior do que a oferta de produtos nessa área

Em 2015, a paulistana Fernanda Camargo decidiu deixar uma carreira bem-sucedida de mais de duas décadas no mercado financeiro para abrir o próprio escritório de gestão de patrimônio de grandes fortunas. Ela e seu sócio Alexandre Gottlieb Lindenbojm, porém, decidiram estabelecer um  critério inegociável para a inclusão de clientes: pelo menos 1% dos recursos deveriam ser dedicados a investimento de impacto – aquele que, além de gerar lucro financeiro, também traz resultados positivos mensuráveis na área social ou ambiental. A regra veio ao encontro do que diversas famílias buscavam, segundo ela. Hoje a Wright Capital possui mais de R$ 3,5 bilhões em ativos sob gestão. “Muitos clientes já ampliaram esse percentual mínimo”, afirma Fernanda. “E em muitos casos só não vamos muito além disso porque o mercado não oferece opções de investimento que comportem um avanço.”

Segundo ela, a pandemia escancarou a desigualdade e trouxe mais visibilidade para o tema, o que só mobilizou mais investidores em torno da questão. O cenário de juros baixos também aumentou a atenção para esse nicho no Brasil. Boa parte das alocações realizadas pela Wright Capital nessa área tem como destino fundos de private equity voltados para negócios de impacto. “Quando começamos, não sabíamos o quanto esse mercado poderia ser atraente do ponto de vista financeiro”, afirma Fernanda. “Hoje, os investimentos que fizemos há cinco anos já valorizaram 50%.” Cabe a ressalva de que o lucro só será embolsado quando de fato os fundos forem encerrados e isso vai levar alguns anos ainda. “Mas é um bom indicador de que essas empresas representam uma boa oportunidade em vários aspectos.” A seguir os principais trechos da entrevista.

A pandemia escancarou as desigualdades sociais. Isso ampliou o interesse pelos temas de impacto e investimentos ASG (que consideram os aspectos ambiental, social e de governança de um negócio) no mundo todo. Houve um crescimento do volume financeiro e o surgimento de novos produtos. Pra nós que buscamos fazer alocações com diversificação e qualidade foi muito bom pois vimos mais talentos entrando nesse universo, tanto gestoras novas quanto grandes gestoras tradicionais. Ao mesmo tempo, no caso do Brasil, tivemos a queda na taxa de juros, que aumentou o interesse por outros negócios além do CDI. E tem também o aspecto geracional. Os millenials começam a questionar, querem saber onde estão pondo o dinheiro e qual o impacto que ele tem. São perguntas que as gerações anteriores não faziam.

Existe uma evolução também no lado dos empreendedores?

Sim. Alguns anos atrás, os poucos fundos especializados nesses negócios olhavam 1 000 empresas para escolher duas ou três. Faltava qualidade. Hoje já melhorou muito. Tivemos a explosão de startups, nos últimos 6 ou 7 anos no Brasil. E isso aconteceu também no mercado de impacto, embora numa escala menor. Para nós, quando começamos a investir nesse mercado, estava claro que existia o dilema do ovo e da galinha nessa história. Para o negócio andar, precisava de recurso. Para ter recurso, era necessário mostrar que o investimento dava retorno. Pensamos que tínhamos de ir em frente e começar a fazer a roda girar. E fomos. Com o tempo começamos a ver mais gente se movimentando em torno disso.

Vemos o interesse de novos gestores e o mercado vai ficando mais sofisticado. Ainda assim, hoje existe mais fluxo de dinheiro do que de produtos nessa área.

Hoje vocês têm clientes que investem mais do que 1% em negócios de impacto?

Algumas familias, se possível, alocariam 100% do que temos sob gestão nesse tipo de ativo. Mas ainda não dá. Criamos em 2015 um fundo de fundos de impacto e os clientes investem principalmente por meio desse veiculo, que tem tido uma performance muito positiva. No começo não sabíamos qual seria o retorno desse tipo de investimento. Mas dizíamos para os clientes: se der tudo errado, depois de 10 anos, vocês terão perdido 1%. Mas, se der certo, esse 1% irá crescer e impactar positivamente mais de 20 milhões de pessoas. Hoje vemos que estamos indo por esse segundo caminho. A avaliação desses fundos é feita ano após ano, baseada no valor das empresas naquele momento. É um retorno que só é firme depois que a participação é vendida e isso só vai acontecer daqui a alguns anos. Mas até o momento considerando todas as empresas investidas o retorno é de mais de 50% desde o início. Bateu o CDI de longe.

Esse tipo de investimento nasceu pela classe de private equity. Por isso são investimentos que precisam de pelo menos 10 anos para maturar. Hoje começam a surgir opções de negócios de impacto no mundo do crédito. Tem alguns fundos que investem em microcrédito, com fintechs, e tem prazos mais curtos do que um ano. Conforme o mercado for se modernizando, teremos mais liquidez nesse assunto. Hoje tem pouco. Os investimentos ligados a impacto têm de preencher requisitos específicos, como medir o impacto social ou ambiental que a empresa possui. Depois de alguns anos, é preciso ver se realmente aquela empresa transformou a vida daquelas pessoas ou não, gerou o impacto esperado ou não.

Com a corrida por produtos financeiros de impacto ou “sustentáveis”, ainda falta clareza no mercado para encontrar definições e critérios comuns?

Os negócios de impacto estão segmentados num nicho bem específico. Quando a avaliação abre para investimentos sustentáveis, ou que considerem aspectos ASG, existem muitos sistemas diferentes. Existem referências da Reuters, da Bloomberg, entre outras. Cada fundo vai ter o seu método. Alguns são mais ativistas e vão cutucar mais para as empresas se mexerem. Outros apenas fazem o screening negativo, para encontrar problemas graves. Falta taxonomia, ou uma classificação padronizada. Se não vira um emaranhado de conceitos sem muito consenso.

Recentemente num evento o (empresário e filantropo britânico) Ronald Cohen disse que, depois da crise de 1929, as empresas foram obrigadas a dar transparência para os números. Agora as empresas serão obrigadas a divulgar a própria pegada. O governo da Inglaterra anunciou a obrigatoriedade do reporting TCFD (sigla para Task Force on Climate Related Financial Disclosures) até 2022, no qual riscos climáticos e outros deverão ser reportados e precificados tanto no balanço de instituições financeiras quanto empresas. Deve haver desdobramentos disso em outros lugares. A Iosco (International Organization of Securities Comissions, organização que regula os mercados futuros e de securitização do mundo) tem falado com órgãos reguladores em diversos países para entender o estágio em que cada um está no que tange esse tipo de transparência e padronização de relatórios. Eles devem recomendar regulação em breve.

Com uma carreira de mais de 25 anos no mercado financeiro tradicional, como você começou a se interessar pelo investimento de impacto?

Em 2010, comecei a ler sobre o movimento de gente querendo mostrar que dava para resolver problemas sociais e junto com isso também ganhar dinheiro. Aquilo fez muito sentido para mim. E para meu marido, que na época trabalhava no mesmo lugar que eu, na Vinci, do Gilberto Sayão. Estava muito claro que queríamos fazer parte disso. A primeira ideia foi montar um fundo de impacto. Mas para isso teríamos de ter conhecimento nessa área de venture capital e private equity. E não tínhamos. Éramos dessa área de gestão de patrimônio. Decidimos fazer o que já fazíamos bem, mas olhando apenas para famílias que tenham esse interesse pelo impacto social. Quando o Alexandre falou isso, em 2014,  respondi: você está preparado para passar fome, né? Ele falou que tinha convicção de que famílias iriam querer falar com a Wright só por causa disso. E estava certo.

O fato é que, logo depois de tomar essa decisão, fui a um evento e coincidentemente sentei ao lado de quem seria nosso primeiro cliente, o Jayme Garfinkel (acionista do Grupo Porto Seguro). Era um seminário sobre educação e numa das apresentações ele comentou comigo que não estava entendendo nada sobre o que estavam falando. Eu respondi que podia explicar depois. Conversamos na saída e ele perguntou o que eu fazia. Disse que estava montando uma gestora de recursos de famílias, com esse percentual em investimentos de impacto. Eu não sabia quem ele era. Só entendi quando ele me deu o cartão dele e me disse que queria conversar. Ele é um grande filantropo e hoje tem se dedicado também a esse tema de investimento de impacto.

Como você começou a carreira no setor financeiro?

Comecei no mercado financeiro muito cedo. Tinha 16 anos e precisava ganhar dinheiro para pagar as contas. Meu pai tinha uma história de altos e baixos no mercado financeiro e naquele momento ele tinha quebrado. Mas o mercado financeiro era um ambiente que eu conhecia.Mas daí eu decidi que precisava ganhar dinheiro e o mercado financeiro na minha cabeça era o caminho mais rápido. Eu estava terminando o que hoje é equivalente ao ensino médio, estudava de manhã e pegava um ônibus à tarde para ir ao centro. Trabalhava numa corretora e naquela época fazia qualquer coisa para aprender. Quando já estava na faculdade cismei que tinha que ir para a Merrill Lynch. Conhecia um amigo que conhecia outro amigo que trabalhava lá em San Diego e depois de 60 mensagens de fax enviados,uma secretária me ligou. Eu disse que queria ir para lá fazer estágio. O diretor respondeu que eu era muito nova, mas pela tamanha insistência abriria uma exceção e fez uma carta-convite. Tranquei a faculdade e fui para lá. Tinha 18 anos, meu inglês era terrível, não tinha nem onde morar. Fiquei no chão da casa de um amigo. Depois aluguei um quarto na casa de um americano. Trabalhava na Merrill Lynch de manhã e à tarde trabalhava como baby sitter para pagar meu aluguel. Fiquei um ano em San Diego e mudei para San Francisco em 1994. Fiz diversos cursos em Berkeley. Nessa época já cuidava de um monte de crianças e ganhava um bom dinheiro assim. Fiquei mais um ano lá. Mas chegou uma hora que eu fiquei com muita saudade do Brasil. Hoje brinco que sou capaz de  mudar o país mas eu não mudo de país. Depois disso, terminei a faculdade e fiz carreira de mais de duas décadas em diversas instituições financeiras na área de tesouraria aqui no Brasil. Em pequenos intervalos montei dois negócios em outros setores, o mais recente deles na área de eventos, que ficou gigante. Mas foi na gestão de patrimônio que me encontrei.

A primeira vez que trabalhei com isso foi com o Roger Wright (ex-sócio do antigo Banco Garantia, que fundou a gestora Arsenal). Ele era o propósito em pessoa. Era um negócio muito especial, mais do que trabalho. Toda a equipe sentia que estava fazendo algo maior, simplesmsnte porque estávamos ajudando as familias nesse emaranhado que é o mercado. Não havia conflito de interesse porque não existiam produtos próprios como acontece num banco. Foi uma escola. Mas, em 2009, ele faleceu num acidente de avião, chegando na Bahia, com a familia toda. E isso foi uma das experiências mais difíceis da minha vida. No dia seguinte tive de segurar o coração na mão e andar. Até que o negócio passou por uma fusão com a Gávea, do Armínio (Fraga). Passado o tempo, a turma vendeu a Gávea para o JP Morgan. E eu, que já tinha comigo essas questões de independência máxima, decidi sair. Ninguém ali estava rico. Mesmo assim abri mão da minha participação e saí. Não tinha plano B quando decidi fazer isso. Mas decidi que queria continuar trabalhando com independência. Fui para a Vinci, do Gilberto Sayão, quando estava sendo criada. Foi ótimo. Mas quando eles começaram a ampliar a área de produtos financeiros, achei que ficaria mais difícil manter a gestão de patrimonio independente sem alocar na própria casa. Queria zero conflito. Saímos de lá eu e meu marido para montar a Wright, nomeada em homenagem ao Roger.

Antigamente você tinha de virar homem. A mesa era violenta. Eu só falava palavrão, dizia que tudo era frescura (risos). Mandava o officeboy comprar sete camisas brancas para mim no shopping. E ele devia achar que eu era uma maluca. Mas o mundo mudou. Se antes a mulher ia ter filho, acabava desistindo da carreira. As oportunidades sumiam. Engravidei do meu filho Benjamin, hoje com 4 anos, quando estava formando a Wright. Foram dois filhos juntos. Em nenhum momento eu parei. O Benjamin passava um tempinho na sala do lado comigo e eu amamentava. Depois ele virou o baby Uber, indo para todo lado para ficar comigo. O mercado mudou muito. Antes era muito mais duro. Com o tempo, essa dureza começou a me incomodar. Ninguém podia falar de espiritualidade. E eu já estudava budismo há muito tempo, tinha ido para a Califórnia, para a Índia. Antes todo mundo dizia que isso era bobagem. Isso mudou. Hoje todos sabem que tem seres humanos atrás das corporações. E isso é bom.

 

ESG, TCFD, SASB, GRI: a sopa de letrinhas para reverter as mudanças climáticas

No início da pandemia começamos a observar inúmeras mudanças no que tange a investimentos sustentáveis.

Hoje, 8 meses depois, estamos vivendo um tsunami. Segundo a Morningstar, no final de setembro, USD 1.2 trilhões de ativos geridos por fundos mútuos já levam em consideração desde fatores de mudança climática a direitos humanos nos seus investimentos.

Dirigindo pela Marginal Pinheiros, em São Paulo, meu filho de 4 anos me perguntou: Mãe, quem foi o louco que jogou lixo no rio?

O que responder? Passo o tempo todo falando sobre a importância de cuidar da natureza, de como os rios são importantes, as árvores, os animais… Vivo dizendo que temos que cuidar do nosso planeta, pois é aqui que moramos.

Como foi que chegamos aqui? Como convivemos com isso como se fosse normal? Estamos afundando no lixo e na poluição que nossa ânsia consumista gerou. É possível reverter esse movimento? Acredito que sim. Pode levar anos, mas a mudança começou. O ser humano costuma aprender mais pela dor do que pelo amor – pelo visto, não mudar vai doer no bolso.

A importância da abordagem de venture philanthropy no brasil e no mundo

Segundo o estudo publicado esta semana pela Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE) chamado “Investimento de Impacto na América Latina”, o volume de investimentos em Negócios de Impacto Socioambiental no Brasil chegou a US$ 785 milhões em 2019 e a maior parte dos investidores espera taxa de retorno de mercado o que nos mostra a ausência de capital paciente, tão importante para o desenvolvimento deste setor.

Esta mentalidade de curto prazo é um grande desafio já que, do outro lado, o empreendedor social precisa além de capital, de tempo e assessoria/mentoria no desenvolvimento de seu plano de negócios. Torna-se especialmente oportuno o entendimento das possíveis abordagens alternativas para equacionar estas questões sociais e ambientais onde a atuação governamental e a filantropia tradicional navegam com alguma dificuldade.

A crise econômica sem precedentes e o estado de insegurança gerados pela pandemia ocasionaram a drenagem na oferta de crédito e aumento significante das taxas de juros praticadas por seus provedores, a paralisação ou postergação de investimentos diretos, seja por investidores estratégicos, seja por fundos de venture capital e private equity, e a canalização de recursos filantrópicos para causas sociais mais urgentes.

É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

Ainda hoje, quando falamos de investimentos de impacto, existe muita confusão. Muitos confundem com filantropia, e outros confundem com o uso de critérios ASG (Ambiental Social e Governança).

Para ser considerado Investimento de Impacto, a empresa/negócio deve investir com a intenção de gerar impacto social ou ambiental positivo e seus retornos financeiros e impactos socioambientais devem ser mensuráveis. O termo Investimento de Impacto surgiu em
2008 quando a Rockefeller Foundation iniciou um movimento para ajudar a desenvolver essa indústria no mundo.

A primeira vez que ouvi falar de investimentos de impacto foi em 2011, quando um cliente pediu ajuda para estruturar um fundo para investir em empresas que tivessem como objetivo resolver problemas sociais e gerar retornos financeiros, no caso, o foco era educação. Em um primeiro momento, imaginei que ele queria montar uma fundação, doar para ONGs ou projetos de educação. Ele nos explicou que queria investir em negócios sociais e, quando esses gerassem dividendos, gostaria de reinvesti-los, criando um ciclo virtuoso. Pensei… Isso existe?