A importância da CVM 193 e a divulgação dos riscos financeiros ligados à sustentabilidade

Autoria de Fernanda Camargo

A revogação da obrigatoriedade dos relatórios de sustentabilidade pela CVM representa um retrocesso regulatório, reduz a transparência do mercado de capitais e dificulta a avaliação de riscos climáticos pelos investidores.

 

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) revogou no último dia 29 a Resolução CVM 193 e, com ela, a obrigatoriedade da publicação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade. A edição da Resolução CVM 244 tornou voluntária a divulgação de informações financeiras de sustentabilidade e interrompe esse processo em momento inoportuno.

Ao revogar essa obrigatoriedade, que havia sido reforçada apenas alguns meses atrás, a CVM demonstra uma fraqueza institucional e um retrocesso em seu compromisso de fiscalizar e desenvolver o mercado de capitais brasileiro. Além disso, dificulta a capacidade do investidor de tomar decisões informadas.

 

A CVM é uma autarquia que sempre trabalhou para garantir que os investidores tenham acesso a informações precisas e completas sobre os valores mobiliários e as companhias emissoras, evitando fraudes e práticas desleais. A CVM não apenas regula, mas também trabalha para promover o crescimento e a eficiência do mercado de capitais, por meio da simplificação de processos para emissão de valores mobiliários, incentivo à adoção de boas práticas de governança corporativa e promoção da educação financeira.

Sua missão é desenvolver, regular e fiscalizar o Mercado de Valores Mobiliários enquanto instrumento de captação de recursos para as empresas, com proteção ao público investidor, em especial os acionistas minoritários, assegurando a divulgação de informações sobre os emissores e seus valores mobiliários.

 

A CVM é o árbitro do mercado de capitais brasileiro. Sua longevidade como instituição respeitada deriva de uma combinação rara no Brasil: mandatos fixos de diretores que reduzem a captura política, corpo técnico especializado, atuação normativa baseada em audiências públicas e alinhamento com padrões internacionais. Em um país marcado pela fragilidade institucional, a CVM se tornou referência justamente por manter consistência regulatória ao longo de quase cinco décadas.

 

Acompanho e admiro o trabalho das equipes técnicas há muitos anos. São profissionais extremamente capacitados e familiarizados com o mercado de capitais. É uma autarquia com cultura técnica sólida e razoavelmente protegida de interferências políticas.

Durante anos várias equipes técnicas da autarquia trabalharam para construir uma governança interna e com várias outras entidades para incorporar os padrões internacionais de reporte financeiro de sustentabilidade do International Sustainability Standards Board – ISSB (IFRS S1 e S2) ao seu arcabouço regulatório, por meio da Resolução CVM 193, em 2023. A resolução exigia que empresas de capital aberto reportassem os riscos financeiramente materiais relacionados à sustentabilidade e ao clima.

O Brasil foi o primeiro de uma série de países, como Reino Unido, Austrália e Japão, a exigir a divulgação mandatória dos relatórios IFRS. Assim, se destacava como pioneiro na agenda de proteção de investidores de efeitos climáticos, sociais e de governança.

O IFRS S1 e S2 se distinguem de um relatório de sustentabilidade corporativo tradicional. O S1 trata da divulgação de informações sobre riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade que sejam relevantes para as decisões de investidores — exigindo que as empresas reportem sobre governança, estratégia, gestão de riscos e métricas associadas a qualquer tema ESG material. O S2 é específico para clima, sendo fortemente baseado nas recomendações do TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures), e requer a divulgação de riscos físicos e de transição climática, bem como de emissões de gases de efeito estufa nos Escopos 1, 2 e 3.

Esse tipo de reporte aumenta a transparência e eficiência do mercado, diminui a assimetria de informações, e facilita a visão estratégica da companhia.

No final do ano passado, a Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca) protocolou um ofício pedindo a derrubada das regras ou o adiamento por três anos. O argumento usado era que a implementação da norma traria um custo alto às empresas, que poderia chegar a 70% dos gastos em auditoria, e sobrecarregaria as companhias considerando outras mudanças legais recentes, como a reforma tributária.

Os primeiros relatórios IFRS da Renner (LREN3) e da Vale(VALE3) já demonstram como esse olhar específico para as demonstrações relacionas à sustentabilidade podem ser um ativo valioso para investidores. A Renner, por exemplo, relata que o risco de ondas de calor já a custou cerca de R$ 18 milhões em 2024, e prevê o efeito no fluxo de caixa dessa questão pelos próximos 10 anos. A divulgação também acende uma alerta sobre o maior centro de distribuição da empresa na América Latina, em Cabreúva-SP, que conta com 33% dos ativos em risco muito alto de incêndios florestais. A empresa também identifica potenciais oportunidades de transição climática, com ganhos estimados de R$223–256MM em 10 anos de venda de produtos sustentáveis e economias significativas com uso de energia renovável.

O relatório da Vale se destaca pelo nível de detalhe de seu plano de transição energética e das oportunidades identificadas com uma economia de baixo carbono. Identificam um crescimento de demanda de metais para transição energética, com aumento de 5% nos preços de níquel/cobre trazendo R$1,3 bilhão de lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) no segmento. Mapeiam as operações mais vulneráveis a riscos climáticos, os custos de precificação de carbono ao venderem produtos no exterior, e diferentes cenários de redução de emissões.

Esse tipo de informações é essencial para investidores, traz transparência sobre os riscos, visão estratégica e governança. Temas importante na escolha de um investimento.

 

O custo da inação diante das mudanças climáticas, vai ser mais alto.

 

Quando falamos de risco, este ano por exemplo, centros meteorológicos internacionais dizem que existe uma probabilidade alta de que o El Niño, fenômeno climático natural de origem oceânico-atmosférica caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, seja um dos mais fortes.

Os impactos vão além do clima imediato, no Brasil os efeitos costumam variar conforme a região: no Sul, aumenta a chance de chuvas acima da média, enchentes e tempestades; no Norte e em partes do Nordeste, há maior risco de seca e redução das chuvas; já no Centro-Oeste e Sudeste, os impactos são mais variáveis, mas podem incluir ondas de calor mais intensas e alterações no regime de precipitações.

Pelo lado da oportunidade, para um país rico em ativos naturais, energias renováveis e cadeias produtivas de baixo carbono, esta agenda traz oportunidades de negócios e de geração de emprego, renda, exportações, tecnologias e inovação. Reportar sustentabilidade dentro de padrões internacionais é condição necessária para atração de capital internacional, redução de custo de financiamento e inserção competitiva na economia global de baixo carbono.

A Resolução CVM 193 convertia externalidades climáticas em informação financeira mensurável, auditável e comparável — reduzindo assimetria de informação, coibindo greenwashing (prática enganosa para criar a imagem de responsabilidade ambiental), atraindo capital externo e protegendo o investidor comum. Seu custo era real para as empresas. Seu benefício era difuso e de longo prazo — exatamente o tipo de bem público que o mercado sozinho não provê, e que justifica a existência de um regulador.

Para aqueles que pensam no longo prazo e no alinhamento de interesses dos investidores e da sociedade, esperamos que se engajem mais nesta agenda.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os diversos tipos de capital para a bioeconomia na Amazônia

Autoria de Fernanda Camargo

Em março fui convidada para participar da “Imersão Amazônia” com a Endeavor. A viagem foi um lembrete do potencial empreendedor que existe no território. A abundância não é apenas de recursos naturais, mas de pessoas incríveis, inovação, empreendedores, sabedoria, conhecimentos da floresta e das infinitas soluções que nela habitam.

Para que a floresta seja preservada, é importante que a população local tenha qualidade de vida e alternativas de trabalho e renda. Apesar de concentrar enorme riqueza natural, a Amazônia brasileira ainda convive com baixo acesso a serviços de qualidade e uma tensão constante entre ativos ambientais e desenvolvimento econômico

Segundo o Banco Mundial, atualmente 36% da população amazônica vive abaixo da linha da pobreza e muitos ainda não têm acesso adequado a saneamento, educação e saúde. O estudo “Amazônia 2030, a Amazônia Legal” também mostra um mercado de trabalho com alta informalidade e desocupação de jovens. Consequentemente, as taxas de desmatamento sugerem que a economia ainda não é capaz de proteger a floresta e gerar valor por meio da bioeconomia. ( impacto / bioeconomia )

A Amazônia brasileira tem abundância de recursos naturais, biodiversidade, conhecimento tradicional, empreendedores resilientes, inovação adaptada à realidade local e soluções que nascem da floresta e de quem vive nela.

Acredito que o maior desafio hoje não seja a falta de capital, mas orquestrar diferentes tipos de recursos para transformar conservação e regeneração em ativos “investíveis”. Para catalisar negócios na Amazônia é preciso pensar de forma sistêmica e conectar capitais: financeiro, humano, conhecimento técnico e redes de relacionamento.

Nos dias que passei lá, falamos muito sobre como estruturar e tornar escaláveis projetos da região. O primeiro, e mais óbvio, é o capital financeiro. Ele segue sendo indispensável para financiar crescimento, infraestrutura, logística, tecnologia e expansão comercial.

 

Uma saída financeira para a Amazônia

 

Mas na Amazônia muitos negócios ainda são percebidos como de alto risco: cadeias produtivas fragmentadas, baixa previsibilidade, distância dos centros consumidores, desafios regulatórios, sazonalidade e pouca padronização de métricas. Isso afasta parte do capital tradicional, especialmente o investidor com mandato restrito de alto retorno.

É justamente nesse ponto que o blended finance ganha relevância. A lógica é simples, embora sua execução seja sofisticada: combinar capital público, filantrópico e privado para tornar viáveis projetos que geram valor econômico, ambiental e social, mas que ainda não se encaixam no perfil clássico de investimento. Combinar recursos concessionais (públicos ou filantrópicos) para reduzir riscos e assim atrair capital privado, que de outra forma não tomaria esse risco. Isso pode ocorrer por meio de uma variedade de estratégias.

A primeira é o uso de first-loss capital (primeira perda), pode ser recurso público ou filantrópico que absorve potenciais primeiras perdas de um projeto para proteger investidores privados com menor apetite a risco. O Fundo Vale é um grande provedor de first-loss ou subordinação para estruturas de soluções baseadas na natureza. Para o investidor deste tipo de cota subordinada (first loss) a mensuração de impacto é essencial.

Outro mecanismo é o de garantias – pode ser de compra da produção ou seguros em determinadas operações. Hoje vemos grandes compradores de commodities dando garantia de compra para produtores que trabalham com sistema agroflorestal. Essa garantia entra como mitigante de risco em uma operação de crédito.

A assistência técnica é outro capital importante – em geral, são doações feitas para o desenvolvimento de capacidades do empreendedor ou produtor e a profissionalização de projetos. A assistência técnica pode ser feita por um instituto ligado ao negócio. Um exemplo é a Belterra, que faz regeneração por meio de sistemas agroflorestais, trabalhando com pequenos produtores enquanto o Instituto Belterra recebe doações para financiar a assistência técnica desses produtores.

Investidores de blended finance também podem operar via instrumentos de dívida concessional ou participação no capital (equity) paciente. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por exemplo, por meio do Fundo Clima, oferece crédito com taxas e condições mais favoráveis para incentivar projetos de impacto ambiental.

O equity (participação no negócio) paciente se refere a investidores dispostos a aceitar retornos menores ou horizontes de saída mais longos para investimentos que tem uma expectativa de impacto mais relevantes que o retorno financeiro. Muitas vezes, o equity paciente pode ser combinado com mecanismos de subordinação (first loss) dentro de estruturas de financiamento criativo de projetos.

O blended finance nesses casos destrava capitais – cada real de capital concessional pode mobilizar um volume muito maior. O grande desafio, nesses casos, além da captação, está na estruturação e na execução. É preciso coordenar diferentes tipos de investidor (stakeholders) com prazos, mandatos e objetivos distintos. (estratégia de investimento)

 

Só dinheiro não é suficiente

 

Quando falamos da criação de ecossistemas, o capital financeiro por si só não é suficiente. Negócios sustentáveis dependem de lideranças locais, formação de equipes, capacidade de gestão, sucessão, governança e execução. Um empreendedor pode ter acesso a um produto extraordinário ou até a uma tese ambiental robusta, mas sem pessoas capacitadas para operar, negociar, reportar resultados e crescer, o investimento não se sustenta.

Nos dias que passei na Amazônia conheci negócios incríveis. O Centro de Bionegócios da Amazônia vem ajudando empreendedores locais no desenvolvimento de empreendimentos por meio da ciência e da tecnologia. Conhecemos também o Centro de Incubação e Desenvolvimento Empresarial (CIDE) que trabalha com inúmeras startups.

 

Muitos desses negócios recebem capital inicial do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), que trabalha com diversos tipos de capital – doações, lei da informática, investimento em participações – e faz desde a aceleração, capacitação até o investimento de longo prazo.

Outro exemplo que mostra como é possível grandes grupos do Sudeste contribuírem para o desenvolvimento da região amazônica é o Grupo Trigo. Estão começando a trabalhar com produtores locais, como fornecedores de ingredientes para rede de restaurantes – para isso eles tem trabalhado em conjunto com o Idesam, o Instituto Arapyaú e outros na região e recentemente estão apoiando a criação do Investe Território.

 

Estivemos com Denis Minev, CEO da Bemol. Além de investir no desenvolvimento sustentável da economia da floresta, ele é, sem dúvida, um canal de oportunidades para a região, conectando inúmeros investidores de outros lugares a empreendedores locais.

Redes de confiança, conexões entre empreendedores, investidores, grandes empresas, cientistas, aceleradoras, especialistas e formuladores de política pública permitem que oportunidades da região não fiquem apenas na intenção.

 

O papel da liderança

 

A imersão aproximou empreendedores locais de investidores, empresas e grandes grupos do Sudeste e do Sul. Foi inspirador ver a reunião de grandes empreendedores da Endeavor Brasil trabalhando juntos, com generosidade e ambição, pelo desenvolvimento de uma região.

E na volta, vim pensando como os aprendizados que tive com meu amigo indiano Sanjay Purohit se aplicam nos desafios que vimos na Amazônia. Ele diz que o papel do líder sistêmico não é executar tudo, mas orquestrar. Desafios sociais, climáticos e institucionais não são quebra-cabeças estáticos, mas sistemas vivos, adaptativos e em aceleração. O erro é tratar complexidade como algo que se “fecha” com uma solução final.

O ideal é desenhar capacidades contínuas de resposta que se adaptam no caminho. Escala não significa ficar maior. Escala é a magnitude da transformação necessária.

Se aprendermos com a floresta, entenderemos que não adianta desenhar soluções isoladas. É preciso desenhar o sistema que torna soluções possíveis.

Wright 10 anos

Esta playlist reúne os vídeos do evento de celebração dos 10 anos da Wright Capital, que reuniu clientes, empreendedores, gestores e lideranças do ecossistema de impacto para refletir sobre a construção de patrimônio, legado e o papel do capital na sociedade.

Ao longo do evento, diferentes convidados compartilharam experiências e visões sobre temas como: empreendedorismo e construção de grandes empresas • gestão patrimonial e visão de longo prazo • investimento de impacto e transformação social • empreendedorismo social • a conexão entre a agenda climática e a sociedade • liderança, governança e legado empresarial • o futuro visto pelas próximas gerações.

Entre os participantes estão líderes empresariais, investidores e representantes de organizações que contribuem para o desenvolvimento da economia e do ecossistema de impacto no Brasil.

A Wright Capital nasceu com o propósito de apoiar famílias e instituições na preservação de patrimônio e construção de legado ao longo de gerações, com uma gestão independente, transparente e alinhada aos interesses de seus clientes.

Esta série reúne os principais momentos, conversas e reflexões desse encontro.

Boas Vindas | Wright Capital 10 anos

Abertura com Tatiana Siaulys

Como tudo começou | Jayme Garfinkel

Abertura com Fernanda Camargo e Alexandre Lindenbojm

Para além do lucro | Artur Grynbaum, Bruno Garfinkel e Fabio Cury

10 anos de impacto | Daniel Izzo, Paulo Bellotti, Andrea Oliveira e Pedro Vilela

Estamos todos conectados | Reginaldo Lima e Maria Netto (ICS)

Um pedido das Crianças

O que queremos para o futuro | Benjamim

COP-30 teve avanços concretos sobre o clima, mas o mundo tornou tudo mais difícil

Autoria de Fernanda Camargo

 

Assim que cheguei à COP em Belém, me deparei com um grupo de lideranças indígenas em um dos palcos organizados pela World Climate Foundation, fazendo o seguinte pedido:

“Cuidar da natureza é cuidar do espírito.

Neste momento vivemos uma crise. Esta crise não é sobre a matéria, é sobre o espírito. Precisamos trazer a sabedoria ancestral para o encontro da ciência. A ciência deve respeitar a sabedoria ancestral.

As coisas estão mudando muito rapidamente. Muitas vezes queremos fazer mais com menos, queremos realizar algo que não está nas nossas mãos. Isso acaba nos afastando das estruturas e princípios originais. Acabamos causando grandes perdas se levarmos em consideração a entidade humana.

Não somos a única espécie neste mundo. Somos apenas mais uma espécie no ecossistema. Precisamos respeitar a vida, a família, o ecossistema, o Pai Céu e a Mãe Terra.

Continuar explorando a estrutura dessa maneira significa abandonar este planeta. Convidamos todos a viver em harmonia, viver com responsabilidade, viver com profundo respeito pelos sistemas da vida.

Queremos viver em uma economia circular. Convidamos vocês a viver com este planeta e não DO planeta. Convidamos vocês a viver COM a família e não DA família. Viver em colaboração com governos, instituições e empresas que prosperam com respeito. Apelamos por uma transição justa e pela regeneração da vida.

Queremos olhar para a restauração do clima, mas não podemos fazer esta restauração se não tivermos pensamentos puros.

Se instituição na qual você trabalha ou sua maneira individual de ser está afetando outros seres, então você precisa se transformar. Se a sua empresa não está defendendo a vida ou não está cuidando da vida, é preciso transformar.

Chegou a hora de viver em harmonia com responsabilidade.

Precisamos trazer consciência, não apenas individual, mas coletiva. Precisamos ir do “eu” para o “nós”.

A chave é trazer ideias puras e belas se quisermos ter sucesso. Ideias puras significam realmente honrar a vida e respeitar outros seres.”

Apesar das questões orçamentárias e logísticas que antecederam a conferência, a COP-30 se consolidou como uma das maiores da história, reunindo 56.118 delegados — entre participantes virtuais e presenciais — incluindo mais de 110 chefes de Estado e de Governo, cerca de 3.000 organizações observadoras e a maior delegação indígena já registrada. Belém ficou atrás apenas de Dubai (COP-28) em número de participantes.

Este encontro ocorreu em um momento simbólico: dez anos após o compromisso histórico de 195 países para manter o aumento da temperatura global bem abaixo de 2°C e buscar limitar a 1,5°C. Infelizmente, as projeções indicam que o mundo pode atingir 1,5°C já no início da década de 2030, mesmo com as promessas atuais — reforçando a urgência de ação.

Os países tinham grandes expectativas para a COP-30, mas não se chegou a um acordo para a saída de combustíveis fósseis e foi difícil construir confiança para uma agenda de financiamento mais robusta.

Quem acompanhou as notícias no final do ano, provavelmente, se deparou com diversas opiniões, relatos e análises dos principais acontecimentos da COP30 no âmbito político. Teve incêndio, protesto, discussão sobre adaptação, implementação e justiça climática. Não teve EUA nem Mapa do Caminho (para fora dos Combustíveis Fósseis). A conferência trouxe à tona os desafios globais mais urgentes relacionados às mudanças climáticas e as maiores discussões multilaterais em relação aos próximos passos.

Do ponto de vista otimista, vários temas avançaram: a incorporação mais explícita do comércio internacional na agenda climática; Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e de financiamento avançaram, mas ficaram aquém do esperado, o fortalecimento de processos e mecanismos de estruturação como plataformas nacionais e coligações financeiras.

O papel do mercado de capitais

 

Estive na COP como diretora da Anbima, representando o mercado de capitais. O foco da conferência é transformar compromissos climáticos em investimentos reais, com escala, rastreabilidade e impacto. O mercado de capitais deve ser o veículo para as oportunidades de financiamento dessa transição. A Anbima também organizou eventos com a CNSeg (Confederação Nacional das Seguradoras), a Febraban(Federação Brasileira dos Bancos), participou de painéis da Green Zone e Blue Zone e patrocinou o Investment COP, evento organizado pela World Climate Foundation. Acho que foi um exemplo de trabalhar em conjunto.

Por outro lado, houve progressos importantes:

  • 117 planos de mitigação e adaptação foram apresentados na nova Agenda de Ação de Belém.
  • Lançamento do Fundo Tropical de Florestas para Sempre (TFFF), iniciativa global liderada pelo Brasil, que já captou mais de 25% da meta inicial de US$ 25 bilhões.
  • Criação de 13 plataformas nacionais de financiamento climático, uma plataforma regional africana e um Hub global de plataformas, em parceria com o Fundo Verde para o Clima.
  • Avanços em mecanismos inovadores como o Fundo para Países Menos Desenvolvidos (LDCF), o Fundo de Perdas e Danos (FRLD).

Também pude presenciar o lançamento do 4° leilão do Eco Invest, focado em Bioeconomia. O Eco Invest Brasil é um programa do Tesouro Nacional brasileiro lançado em 2024, baseado em blended finance: combinação de capital público catalítico (incluindo garantias e fundos subordinados) com investimentos privados, visando mitigar riscos e alavancar recursos. Os quatro leilões já mobilizaram mais de R$70 bilhões.

Como no gráfico abaixo, do Climate Policy Initiative, o que aprendemos na COP-30 é que a solução climática não será alcançada por uma única abordagem ou por um único ator, mas por meio de uma rede colaborativa, onde todos têm algo a contribuir.

 

Fonte: Climate Policy Iniciative

 

Um exemplo disso foi o encontro organizada pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) com a India Climate Collaborative (ICC) e a Shakti Sustainable Energy Foundation para colaboração entre Brasil e Índia para uma ação pró Clima (Climate Action). Outro exemplo foram grandes empresas europeias criando estruturas de blended finance no Brasil para ajudar a financiar agricultura regenerativa com taxas mais atrativas.

Para quem estava lá, especialmente para os representantes da sociedade civil, setor privado e organizações financeiras, o destaque não estava apenas nas negociações formais, mas nas conexões, nas conversas informais e no verdadeiro potencial de colaboração que surgiu entre diferentes grupos. Ver gente do mundo todo reunida por um único objetivo é muito animador.

 

Cenário geopolítico turbulento

 

O início de 2026 trouxe um cenário geopolítico turbulento que dificultou a diplomacia climática: a captura de Nicolás Maduro pelos EUA e a declaração de Donald Trump sobre controlar a Venezuela e suas reservas de petróleo aumentaram tensões globais e as preocupações quanto ao futuro dos combustíveis fósseis e a intensidade de sua utilização em meio a eventos climáticos relevantes.

De outro lado, conflitos no Oriente Médio e a guerra na Ucrânia pressionaram mercados energéticos, com a OPEC+ mantendo cortes para sustentar preços; a rivalidade entre EUA, a China e a Rússia se intensificou, afetando cadeias de suprimento de tecnologias verdes; a ausência dos EUA na COP-30 sinalizou prioridades domésticas sobre compromissos globais; e países vulneráveis enfrentaram dificuldades para financiar adaptação em meio a juros altos e instabilidade econômica. Para piorar, a recente declaração de Donald Trump sobre a intenção de “tomar a Groenlândia” reacendeu tensões diplomáticas e pode gerar um conflito sem precedentes com países da OTAN.

Esse contexto tornou a busca por consenso ainda mais desafiadora, mas essencial para preservar o multilateralismo.

 

 

 

 

“Esses desafios reforçam a importância de uma gestão de patrimônio especializada.”

A floresta como ativo de investimento estratégico para a economia verde

Autoria de Fernanda Camargo e Bianca Auriemo

Segundo um levantamento feito pela Nexus e Movimento União BR, um em cada quatro brasileiros já viveu ou conhece alguém que foi impactado por uma tragédia ambiental. O Brasil tem 2600 cidades em risco alto ou muito alto para desastres naturais – como seca, inundações e deslizamentos de terra – ou possíveis impactos causados pela chuva, seca ou segurança alimentar, segundo dados do AdaptaBrasil, uma ferramenta elaborada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI).

 

É impossível não se assustar ao olhar os gráficos do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres:

A nova fronteira de investimento: ativos florestais, bioeconomia e empregos verdes (Foto: Sistema Integrado de Informações sobre Desastres - S2iD)
A nova fronteira de investimento: ativos florestais, bioeconomia e empregos verdes (Foto: Sistema Integrado de Informações sobre Desastres – S2iD)

Nos últimos meses, vimos os incêndios florestais em Los Angeles, com prejuízo estimado em US$ 53 bilhões (R$ 297 bilhões); um terremoto de magnitude 7,7 em Mianmar, que somou perdas de US$ 12 bilhões; e as inundações de julho no Texas, que tiveram impactos significativos de até US$ 1,1 bilhão, de acordo com a seguradora Cotality, e causaram a morte de mais de 130 pessoas.

Três dias atrás, uma enchente relâmpago deixou quatro mortos e mais de 100 pessoas desaparecidas em Uttarakhand, na Índia.

À medida que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes e intensos, é cada vez mais crucial que o mercado leve em conta os custos associados ao aumento da temperatura média global.

A seguradora Munich Re estimou que, só nos primeiros 6 meses de 2025, o mundo já sofreu cerca de US$ 131 bilhões (R$ 733 bilhões) em perdas relacionadas às mudanças climáticas.

 

Quanto custam os desastres ambientais?

No primeiro semestre, no Brasil, as perdas chegaram a US$ 5,355 bilhões – 80% das perdas da América Latina, de acordo com relatório da empresa de resseguros AON. Esse valor foi impulsionado por tempestades severas, seca prolongada e enchentes.

 

Nesse contexto, o meio ambiente pode ser visto como um grande gerador de prejuízos, tanto monetários quanto sociais.

A preservação da natureza, por sua vez, também é muitas vezes vista como um grande gasto ou entrave ao desenvolvimento socioeconômico.

 

No final de julho, a pedido do presidente dos EUA Donald Trump, o diretor da Agência de Proteção Ambiental (EPA) Lee Zeldin, revogou a base legal que regula as emissões de carbono – o chamado endagerment finding, constatação científica de 2009 que determina que os gases de efeito estufa são riscos à saúde da população. Segundo Zeldin, a lei estava levando “o país à falência em nome da justiça ambiental”.

No Brasil, em julho, o Congresso aprovou o Projeto de Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que flexibiliza a necessidade de aprovação para obras “estratégicas”.

 

O Brasil deve ser exemplo para o mundo

É muito importante mudar essa visão. Na verdade, a proteção de ativos ambientais tem imenso potencial de retorno financeiro, além de ajudar na mitigação das mudanças climáticas e na redução de riscos.

No Brasil, onde temos um imenso patrimônio natural, é um erro ignorar as oportunidades de investimento focadas na preservação de florestas vivas ou regeneração de terras degradadas – que podem ajudar a dobrar nossa produção agrícola sem desmatar.

 

“Estima-se que o país tenha 55% de áreas de pastagens degradadas (97,7 milhões de hectares), sendo 53,4 milhões com degradação intermediária, frente a 66,38 milhões de hectares agricultáveis.”

 

De acordo com a Climate Policy Initiative, já somos líderes mundiais em financiamento climático, que cresceu 84%, contra 26% na média mundial, entre 2021 e 2022. Mesmo assim, ainda ignoramos nosso capital natural. A maior parte dos investimentos foi concentrada em transição energética, embora o Brasil já tenha 83% de sua matriz proveniente de energia limpa. O setor de Agropecuária, Florestas, Outros Usos da Terra e Pesca (AFOLU) recebeu apenas 11% do financiamento, apesar de ser responsável por dois terços das nossas emissões e ter enorme impacto econômico e ambiental.

Muitas vezes vistos apenas como commodities para extração, nossos ativos naturais têm imenso potencial estratégico se mantidos e explorados de forma regenerativa.

 

“Enquanto a economia global busca a descarbonização, o Brasil pode transformar a floresta em pé em fonte de receita, empregos e competitividade internacional, ao incentivar a bioeconomia e as soluções baseadas na natureza”

Eventos que fazem a diferença

Nos dias 30 e 31 de julho, o Pacto Global da ONU e a gestora KPTL reuniram investidores, empreendedores, Organizações Não Governamentais (ONGs), pesquisadores e agentes do setor público em Manaus, na segunda edição do Bioeconomy Amazon Summit. Lá, discutiram-se pautas sobre o potencial de crescimento de uma economia produtiva e verde na região, voltada para enfrentar a crise climática e estimular o desenvolvimento socioeconômico.

Entre as mais de 150 startups presentes, foi possível conhecer um ecossistema dinâmico de produtos naturais produzidos de forma regenerativa, soluções tecnológicas de monitoramento espacial e geográfico, incubadoras de inovação e colaborações entre saberes locais e padrões internacionais.

A socio-bioeconomia, principal ponto de discussão no evento, é definida pelo Fórum Econômico Mundial como um conceito que busca cadeias produtivas sustentáveis, protege a herança genética local, estimula a criação de empregos e geração de renda, e se posiciona como solução de adaptação climática.

 

Hoje, a floresta é vista sob três perspectivas:

  • Como responsabilidade moral;
  • Como trava ao desenvolvimento via desmatamento;
  • Como fonte de renda por meio de créditos de carbono.

Apesar do potencial do mercado de créditos de carbono e da necessidade desse instrumento para ajudar na redução de emissões em setores hard-to-abate(cimento, aço, alumínio, química e transporte de longa distância), o potencial das nossas florestas vai muito além disso.

No TED Talk “Put a value on nature”, de 2011, Pavan Sukhdev argumenta queatribuir um valor monetário aos recursos naturais pode impulsionar uma melhor gestão ambiental. Ele destaca que:

A não contabilização dos benefícios econômicos dos ecossistemas leva à sua subvalorização e degradação.

Como “banqueiro da natureza”, Sukhdev apresenta dados sobre custos ocultos de atividades que degradam recursos naturais, como o desmatamento e a poluição. Mesmo serviços aparentemente simples, como a polinização por abelhas – estimada em US$ 190 bilhões anuais -, são ignorados nas decisões econômicas, destrincha a organização governamental (ORG) Why Green Economy?.

O discurso sugere que, ao compreender o verdadeiro valor econômico do capital natural, podemos abandonar o modelo que prioriza ganhos de curto prazo em detrimento da saúde ecológica de longo prazo. Sukhdev defende a criação de “Contas de Capital Natural”, para rastrear o valor dos recursos ambientais junto às métricas financeiras tradicionais.

 

Florestas passam dos US$ 150 tri em valor monetário

Em uma tentativa de precificar o valor monetário das florestas globais, a consultoria BCG estima que ele possa chegar a US$ 150 trilhões – quase o dobro do valor do mercado de capitais mundial – considerando captura de carbono, regulação de sistemas hídricos, geração de renda e biodiversidade. Um estudo sobre a Amazônia brasileira sugere valor de até US$ 524 por hectare ao ano.

As Soluções Baseadas na Natureza (SBNs) oferecem serviços para mitigação e adaptação climática, regeneração de solos degradados, sistemas agroflorestais e outros, gerando também retornos financeiros. Entre as atividades produtivas potenciais estão o cultivo de Produtos Florestais Não Madeireiros (NTFPs) – frutos, sementes, castanhas, óleos, resinas, látex, plantas medicinais -, sistemas agroflorestais (SAFs), ecoturismo e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), que recuperam pastagens degradadas e aumentam a produtividade de serviços ecossistêmicos.

 

“Além do potencial econômico, a bioeconomia pode reduzir desigualdades e gerar empregos.”

Segundo o World Resources Institute, só na Amazônia Legal há potencial para 365 mil novos postos de trabalho. Uma análise da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), da Universidade de São Paulo (USP), indica que empregos verdes beneficiam principalmente mulheres.

A necessidade de repensar nossa economia para torná-la mais verde e explorar as oportunidades dos ecossistemas é clara. O mundo está mudando. Ou mudamos com ele, ou ficamos para trás. É essencial reestruturar modelos de negócios, cadeias produtivas e estratégias de investimento de forma sustentável e justa.

 

Como destacou meu amigo indiano Sanjay Purohit, especialista em mudanças exponenciais:

“Podemos começar com um sistema de valores, usar as leis da biologia, criar políticas públicas e infraestruturas compartilhadas. No modelo atual, aprendemos a criar fazendas; agora precisamos aprender a criar florestas. Criar florestas tropicais, onde todos pertencemos. Devemos trazer as florestas de volta à vida. E onde estaríamos nós no meio da floresta? Deveríamos ser os rios… porque o conhecimento flui. Devemos manter a floresta crescendo, compartilhando conhecimento. Deveríamos aprender com as árvores. As árvores nos dão os frutos, mas nunca perguntam o que você vai fazer com eles.”

Wright Capital: Fundos de impacto ajudam a separar joio do trigo ESG, explica a sócia Fernanda Camargo

Autoria de  Cintia Salomão

A economia global se encontra em meio a uma dramática convulsão estrutural e deve exigir investimentos para construir a transformação. Governos possuem cada vez menos condições políticas para resolução de tais questões, e o terceiro setor, por mais que se esforce para preencher as lacunas existentes, não tem recursos suficientes. O setor privado tem que participar.

Com essa constatação, a gestora de patrimônio Wright Capital justifica a urgência global dos chamados investimentos de impacto em seu Relatório de Impacto 2024.

Fernanda Camargo, sócia-fundadora da gestora de capital, membro do Conselho da Fundação Grupo Boticário e diretora da Anbima (Associação Brasileira das Entidades de Mercado Financeiro e de Capitais), com experiência de 23 anos em gestão de patrimônio, diferencia de maneira enfática os fundos ESG dos fundos de impacto, embora os investimentos de impacto possam ter fortes correspondências com os investimentos ESG.

“Entendemos que essa não é uma mudança de curto prazo. Trata-se de uma mudança sistêmica, que demora de 20 a 40 anos para acontecer. É diferente de colocar um selo ou uma capa verde para ganhar um bônus no final do ano”

“Os fundos de impacto buscam investimentos em empresas que têm como objetivo resolver problemas sociais e ambientais — e que precisam medir as mudanças. Já a agenda ESG trata de medir riscos climáticos, trabalhistas e de governança. Ou seja, o ESG está no core dos negócios, trata de medir riscos materiais e varia de acordo com o setor. Mede externalidades e o risco dessas externalidades e como esta no centro dos negócios, a mudança costuma custar caro, leva tempo e exige mudança de mentalidade da liderança”, esclarece em entrevista ao Integridade ESG.

Desde que foi criada, a Wright Capital estabeleceu como regra que  pelo menos 1% do patrimônio dos clientes seja investido em fundos de impacto socioambiental. Hoje, suas dezenas de clientes, entre famílias e institutos, continuam seguindo essa regra.

“No início da relação começamos com 1%. Ao longo do tempo, isso foi crescendo para 2 a 4%, com clientes que querem mais… Conforme o mercado vai evoluindo e mais oportunidades vão surgindo, aumentamos o percentual. Já nascemos em 2014 assim, com esse compromisso, reunindo empresas que compartilhem desse olhar. Ainda não há fundos suficientes de impacto para investir o patrimônio inteiro; isso vai levar décadas, mas chegaremos lá um dia”, comenta a economista, que também é membro do Instituto Clima e Sociedade (ICS).

Ampla gama de fundos de impacto

O trabalho da Wright — certificada como empresa B — envolve esforços de advocacy, além de conversas com gestores, órgãos regulatórios, agências de fomento e bancos de desenvolvimento. As alocações podem envolver investimentos em uma série de fundos específicos, como Vox Tech for Good Growth, MOV II, Positive Ventures DIF II, GEF, Rise Ventures e FIDC Estímulo.

Os fundos de impacto devem estar baseados em três pilares: a intencionalidade, ou seja, deve ter o objetivo de gerar impacto socioambiental positivo e de resolver um determinado problema, desde o início; o retorno financeiro positivo, o que significa que devem gerar retorno financeiro sobre o capital investido ou no mínimo o retorno do principal; e o impacto mensurável, medido de modo claro e explícito.

“Os juros altos sequestram os fundos, que ficam no CBD, impactando negativamente os investimentos verdes, sendo mais prejudiciais do que a onda antiwoke para a agenda sustentável brasileira”

Empresas investidas pelo fundo Vox Tech for Good Growth, por exemplo, geraram R$22 bilhões em transações financeiras para um mercado que não tinha acesso. O fundo também evitou a emissão de 7,7 mil toneladas de CO2 no agronegócio e na alimentação, enquanto a investida da Mov Investimentos protegeu 2,5 milhões de hectares e evitou emissão de 11,4 milhões de toneladas de CO2. Outra investida do Yunus Negócios Sociais possibilitou que 16,2 mil alunos tivessem acesso a plataformas de educação e outros 103mil alunos concluíssem cursos de mecânico. Todos os projetos são mensurados — fator crucial para a gestão de um fundo de impacto.

“Entendemos que essa não é uma mudança de curto prazo. Trata-se de uma mudança sistêmica, que demora de 20 a 40 anos para acontecer. É diferente de colocar um selo ou uma capa verde para ganhar bônus no final do ano. Temos um entendimento de que questões, como o lado social do Brasil, precisam mudar no longo prazo —, e não só pelo lado climático, mas principalmente pelo lado social. É importante entender como você consegue, através de soluções de negócios, resolver grandes problemas sociais e gerar oportunidades”, resume.

Separação do joio e do trigo

A partir de 2027 será mandatório pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) que as empresas mapeiem e divulguem os seus riscos climáticos e digam o que que elas estão fazendo para resolvê-los, lembra Fernanda, impactando de forma intensa a agenda ESG corporativa e os chamados fundos sustentáveis.

“Já os fundos de impacto são diferentes. Podemos ter uma empresa de impacto que não mede o ESG e o mesmo impacto que mede o ESG. Porém, o ESG virou um auê, envolvendo questão política e greenwashing etc. Misturou-se tudo. Então, temos que ‘desmisturar’. Uma coisa é risco. Outra é oportunidade, é investimento, é como você resolve as questões”.

Os fundos de impacto são destinados à resolução de problemas de educação, inclusão financeira, moradia, acesso a microcrédito, redução de repetência escolar, enfim, um “zilhão de investimentos que podem ser feitos”, define.

Nessa confusão em torno do movimento verde, “muitos se vestiram de capa verde sem fazer nada”, constata.

“A discussão foi capturada pelo lado político e ficou rasa. E, no final da história, os eventos climáticos não vão deixar de acontecer por causa da política”, acrescenta a cofundadora da Wright.

Mais regeneração agrícola e menos juros

Para a economista, os investimentos verdes no Brasil deveriam estar concentrados no uso da terra e na atividade agropecuária, as maiores fontes de emissões de carbono do país, e não no setor de energia.

“O nosso foco deve ser reflorestar e regenerar com soluções baseadas na natureza. É importante ficar repetindo mil vezes por dia que mais de 80% da nossa fonte de energia é limpa. Então o país não deveria ficar tão preocupado com a transição energética. Nesse sentido, a maior parte do investimento deveria ir para a regeneração de pastagens degradadas. Mas, no mundo, o cheque para a transição energética é alto. Por isso, muitos pensaram: Vou para esse lado por causa desse cheque”, avalia a cofundadora da gestora de patrimônio.

Para Fernanda, que é membro do Latimpacto e do Instituto Cactus, a onda antiwoke vinda do Estados Unidos traz menos prejuízos à agenda ambiental brasileira do que a atual taxa de juros praticada no país.

“Muitas empresas, com medo do que está acontecendo nos EUA, estão mudando os nomes dos seus programas de inclusão ou até reduzindo-os. No entanto, a principal questão não é essa, e sim a alta taxa de juros que sequestra todo o investimento e que fica no CBD, impactando de forma negativa o investimento verde”, alerta ela, que trabalhou no Standard Bank, Deutsche Bank no Brasil e no Private bank da Merrill Lynch em São Francisco, Califórnia.

R$ 8 viram sementes de um futuro melhor

Ao realizar gestão de patrimônios somados e avaliados em torno de 8 bilhões de reais de 50 clientes que toparam aplicar 1% dos seus patrimônios em fundos aplicados na resolução de problemas socioambientais, a Wright Capital está mostrando às classes dirigentes que investir no bem-estar social é o caminho certo, acredita Fernanda Camargo, sócia fundadora da gestora de capital.

“Você planta a semente, mas não tem controle de como ela vai brotar e crescer lá na frente. E só nasce em solo fértil. Vamos seguir plantando sementes, e torcer para gerarem bons frutos. E foram frutos incríveis até agora”, finaliza a especialista em gestão de patrimônio.

COP30: por que os investimentos no Brasil deveriam focar em soluções baseadas na natureza

Autoria de Fernanda Camargo

Em 2015, quando o Acordo de Paris foi assinado, tudo indicava que a cooperação internacional estava a pleno vapor. Hoje estamos vivendo um momento geopolítico complexo, polarização política e negacionismo. Neste cenário, a COP30, em Belém, é um contexto de desafios sem precedentes.

O Brasil construiu consensos importantes para a criação de princípios para a bioeconomia, financiamento para as soluções baseadas na natureza e implementação da reforma dos bancos multilaterais de desenvolvimento. A COP29 criou um plano de trabalho Baku-Belém para mobilizar US$ 1,3 trilhão em financiamento climático até 2030 – desse valor, metade deve vir do setor privado e o mercado de capitais terá papel importante.

Temos ouvido muito sobre “Energy Transition” (transição energética). mas, quando essa agenda chega aqui ao Brasil, grande parte do conteúdo da agenda vem do norte global, onde será necessário investir em renováveis e outras fontes para sair da dependência do carvão, petróleo ou gás.

No Brasil as fontes de energia limpa representam mais de 83% da matriz energética. Quando falo sobre isso em outros países, escuto muita gente dizer que não sabia dessa informação.

A maior parte das emissões de CO2 no Brasil vem de mudanças de uso da terra, especialmente o desmatamento (50%), seguido da agropecuária, energia e processos industriais. Neste sentido, os investimentos no Brasil deveriam focar em Soluções Baseadas na Natureza, ILFP (Integração Lavoura e Floresta), SAF (Sistemas Agroflorestais), recuperação de terras degradadas, etc.

A questão é que os investimentos em Soluções Baseadas na Natureza, em geral, são investimento de em média R$ 100 milhões, com prazos longos (10 a 20 anos) e exigem capital catalítico – afinal, a natureza não se regenera no tempo que o mercado deseja.

As grandes gestoras ou instituições financeiras acabam focando em transações acima de R$ 1 bilhão e, assim, acabam adotando a agenda do norte global, trazendo oportunidades de investimentos em transição energética em vez de transações pequenas em Soluções Baseadas na Natureza. No mercado financeiro isso é conhecido como “transaction cost” – o custo da instituição mobilizar uma equipe sênior e cara para transações pequenas não vale a pena.

O papel dos bancos de desenvolvimento, fundos, fundações ou institutos

 

Para viabilizar esta agenda, é necessário mobilizar um montante muito maior de capital catalítico ou blended finance. O capital catalítico pode aceitar mais risco, entrar em uma cota subordinada, fornecer garantias, arcar com custos de assistência técnica, garantir o offtake da produção etc. Em geral, este deveria ser o papel de bancos de desenvolvimento, fundações ou institutos.

Atualmente o Governo Federal, através do Fundo Clima, com recursos reembolsáveis e não-reembolsáveis, administrado pelo BNDES, deve investir cerca de R$ 32 bilhões até 2026. O EcoInvest também foi um programa criado para impulsionar investimentos privados sustentáveis e atrair capital externo para projetos de longo prazo, oferecendo instrumentos de proteção contra a volatilidade do câmbio. Recentemente o Tesouro Nacional inclui no último edital recursos para recuperação de pastagens degradadas.

No Brasil um bom exemplo é o Fundo Vale – este tem sido um dos mais importantes atuantes. No seu portfólio de fomento, o Fundo Vale investiu na Amaz Aceleradora de Impacto, oferecendo também suporte aos negócios em temas como gestão financeira e administrativa; Plataforma Jornada Amazônia da Fundação Certi; Conexão Povos da Floresta; Empreende Amazônia e Latimpacto. O fundo também contribuiu com capitais financeiros híbridos para Meta Florestal 2030 da Vale (Capital semente), Plataforma de Empréstimo Coletivo da Sitawi (Peer-to-peer lending), AMAZ Aceleradora de Impacto (fundo de investimento), PrevisIA – plataforma de Inteligência Artificial (IA) para prever as áreas sob maior risco de desmatamento na Amazônia, Fundo de Floresta e Clima KPTL (Venture Capital), Conexsus (Pronaf, CCB e CRA verde).

Também investiu na Belterra Agroflorestas, Caaporã Agrosilvipastoril, Bioenergia Orgânicos, ReGenera, Inocas e outros. Atuou na estruturação de inovações em Soluções Baseadas na Natureza, como a criação da Biomas, empresa focada na restauração, conservação e preservação de biomas brasileiros, além da incubação do Hub de Carbono Vale, framework de originação, desenvolvimento e gestão de projetos de carbono e ativos ambientais com ganhos sociais para as populações envolvidas. Precisamos de muitos outros assim!

Riscos climáticos, furacões, queimadas, enchentes… Havia mais futuro no passado

Nesta semana do Dia da Criança, tirei alguns dias com meu filho de 8 anos. Viemos para o Litoral Norte, lugar que eu amo, onde passei grande parte da minha juventude. Nessas praias, o contato com a natureza sempre foi especial.

Guardo na memória as caminhadas na praia, a natação até as ilhas, os mergulhos, o pôr do sol, o céu estrelado, a lua cheia, aquela sensação de paz, de conexão e de que tudo ia dar certo.

Na estrada ainda é possível ver muitos dos morros que desabaram no fatídico desastre do Carnaval de 2023. Meu filho me perguntou se aquilo poderia acontecer de novo… Respondo tentando mudar de assunto: “Ahhh… pode, mas é raro”. (será? Esse tipo de desastre não é mais tão raro).

Caminhando em direção à praia, vejo a seguinte frase pintada no muro: “Havia mais futuro no passado”. Meu coração ficou pequeno. Olho para meu filho correndo em direção ao mar e tento imaginar como será o futuro dele.

Quando ligamos a TV à noite, só se falava do Furacão Milton que se aproximava da Flórida, no Estados Unidos. Minha irmã e meu sogro moram em Miami – o furacão não chegaria ali, mas meu filho quis ligar para todos e ter certeza de que estavam bem.

O Furacão Milton chegou na Florida 12 dias depois que o Furacão Helena passou e deixou a região devastada. Foi muito triste assistir ao meteorologista americano chorando ao falar do furacão que se aproximava.

Aqui no Brasil, neste ano assistimos às enchentes no Rio Grande do Sul – onde 2,3 milhões de pessoas foram afetadas. Recentemente o fogo atingiu a Amazônia, Pantanal, Cerrado, interior de São Paulo… Entre os dias 9 e 10 de setembro 60% do país estava coberto de fumaça.

Gastos com mudanças climáticas X custos das guerras

Além das mudanças climáticas, estamos em meio a duas guerras. Os gastos militares no mundo foram de US$ 2,43 trilhões em 2023. Segundo o Climate Policy Iniciative, os gastos climáticos em 2022 foram de US$ 1,3 trilhão mas seriam necessários US$ 10 trilhões por ano para atingirmos as metas do Acordo de Paris e manter a temperatura abaixo de 2C. Tudo indica que o mundo escolheu investir mais em guerra do que na transição climática.

Trabalho com gestão de patrimônio desde 2002. Na Wright Capital, nos últimos 10 anos viemos fazendo o possível para buscar alocações que alimentem um futuro melhor.

Além de nos envolvermos com os gestores, investirmos em fundos de impacto socioambiental, fundos climáticos, ESG e outros, fazemos parte de inúmeros grupos para ajudar em mudanças regulatórias ou estruturais no mercado de capitais. É um trabalho intenso e cansativo – o que me dá força é a certeza de estar fazendo meu máximo para o futuro das próximas gerações.

Ainda encontro muitos que insistem em dizer que não existe mudança climática e outros que dizem que existe, mas não foi causada pelo homem e então não há nada a se fazer. Mas então os 600 cientistas envolvidos no IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança do Clima) estão errados? Todos?

As queimadas que atingiram o interior do estado de São Paulo em agosto já provocaram prejuízo de R$ 1 bilhão de reais na agropecuária, segundo estimativa da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do estado. A seca e as queimadas atingem diversas regiões do Brasil já estão elevando o preço dos alimentos.

É difícil mensurar o efeito do atual cenário climático, mas plantações permanentes, como açúcar, café e laranja, e da região Sudeste e Centro-Oeste, serão as mais afetadas. Ou seja, o impacto climático vai afetar a inflação de alimentos e o bolso daqueles que menos tem.

Em setembro de 2015, o então governador do Banco de Inglaterra, Mark Carney, fez um discurso marcante sobre a “Tragédia do Horizonte”. Explicou que as alterações climáticas criam riscos tremendos para os mercados financeiros. As perdas estimadas são enormes.

Riscos climáticos e decisões de investimento

No entanto, como o prazo era muito longo, a maioria das empresas não priorizou grandes mudanças – já que estas teriam um custo muito alto no curto prazo. Nove anos depois, a “tragédia do horizonte” tornou-se um conceito central de grande parte do discurso sobre os riscos climáticos.

Os riscos climáticos, como as respostas abruptas às exigências políticas e dos consumidores – ou as inevitáveis ​​ondas de choque dos impactos climáticos físicos –, são muito mais relevantes para a economia e decisões empresariais hoje do que aquilo acontecerá em 2050.

As decisões de investimento tomadas agora criam e mantêm ativos reais que existirão em um mundo muito diferente daqui a uma década. Apesar dos progressos realizados desde 2015 na preparação das empresas para os riscos climáticos, as decisões empresariais são sustentadas por pressupostos econômicos e financeiros que ainda não refletem os riscos físicos previsíveis nem a transição para carbono zero.

Do ponto de vista financeiro, a pergunta é: seu portfolio é à prova de futuro? Você sabe se os títulos ou ações de empresas nas quais você esta colocando sua poupança estão expostas a riscos físico ou regulatórios? Essas empresas estão realizando as mudanças necessárias? Essas empresas vão existir daqui a 20, 30 anos?

Do ponto de vista humano, será que não precisamos ressignificar o que é importante? Nós fazemos parte da natureza, se a destruirmos, estamos destruindo nós mesmos. Será que isso ainda não esta claro?

De acordo com Ailton Krenak [mineiro que é líder indígena, ambientalista, filósofo, poeta e escritor], a separação das pessoas da mãe Terra é um processo de abstração civilizatória, na qual o consumo as leva ao impedimento de viver a verdadeira cidadania. É justamente isso que está criando falta de sentido na vida, retirando o prazer de viver, de dançar e de cantar, o que transformou a humanidade em “humanidade zumbi”. Por isso, ele diz que o que ele está fazendo naquele momento da conversa com as pessoas é “contar mais uma história”, para adiar o fim do mundo.

Como reconstruir a confiança global após Davos

O resultado das eleições do Paquistão, em 9 de fevereiro, foi chocante. Candidatos independentes afiliados ao partido do líder político paquistanês Imran Khan, que está preso, conquistaram o maior número de assentos na Assembleia Nacional. Uma versão de Khan gerada por inteligência artificial (IA) reivindicou a vitória nas eleições e apelou aos seus apoiadores para “mostrar agora a força de proteger o seu voto”.

Segundo o Global Risk Report do Fórum Econômico Mundial, as preocupações com uma crise persistente do custo de vida e os riscos interligados de desinformação e informação falsa impulsionados pela IA, bem como a polarização social, dominam as perspectivas de riscos para 2024.

Neste contexto, o slogan da reunião deste ano do Fórum Econômico Mundial (WEF) em Davos foi “Rebuilding trust”(Reconstruindo confiança). Desafios comuns, como fortalecer a economia e enfrentar as alterações climáticas, levantaram a questão de por onde começar, uma vez que estas circunstâncias complexas exigem ações urgentes e coordenadas.

Portanto, o Fórum Econômico Mundial ofereceu a plataforma para abrir conversas e recuperar a confiança entre entes públicos e privados, permitindo o florescimento da colaboração global.

Entre os desafios estão não apenas a forma de lidar com as mudanças climáticas e as suas consequências, mas também a preparação para os riscos da transição; isto é, riscos relacionados às alterações climáticas associados à transição para economias e tecnologias verdes.

O fio condutor: a necessidade de colaboração entre o setor público e privado com a sociedade civil, mas com um alinhamento comum.

Transformações na demanda energética; impactos na saúde humana devido as mudanças climáticas; o futuro do Green Deal na Europa face à incertezas geopolíticas; extração sustentável e redução da dependência de minerais críticos; o papel da América Latina na manutenção das cadeias de abastecimento alimentar; a IA como força motriz para a economia e tecnologias digitais críticas para a adaptação climática foram alguns exemplos de temas debatidos em Davos.

Os principais desafios identificados foram insuficiência de políticas para apoiar a eficiência energética, garantir financiamento para descarbonizar mercados emergentes, estratégias concretas para triplicar a capacidade de energias renováveis, envolvimento da comunidade para implantação de infraestrutura, reformas para governança global e a necessidade de desenvolver modelos de transição resilientes contra choques econômicos e geopolíticos.

A destruição de ecossistemas não pode mais ser considerada uma externalidade, é necessário um alinhamento financeiro relacionado ao clima e promover políticas orientadas pela ciência, além da capacitação de bancos públicos para lidar com projetos orientados por Net zero (emissão zero).

Algo que emergiu nas conversas em Davos foi a tendência psicológica de criar um preconceito contra os extremos, uma desconexão com problemas maiores e imediatos e a falta de vontade de pensar em eventos catastróficos – até que eles aconteçam. Esta tendência faz com que os riscos que não podemos resolver imediatamente pareçam distantes e abstratos.

Para resolver isso, precisamos encontrar novas formas de transmitir a urgência e as consequências tangíveis das mudanças climáticas. A declaração de Bill Anderson (Bayer AG) trouxe um bom exemplo: “Temos que parar de falar sobre a crise climática em termos de graus Celsius e começar a falar sobre isso em número de vidas”.

Será que vai ser preciso um aumento nos prêmios de seguros ou de impostos, por exemplo, para traduzir os impactos das alterações climáticas em custos monetários ou de saúde para que haja consequências? Os setores público e privado internacionais precisam promover uma transição sustentável e evitar consequências mais catastróficas das alterações climáticas, enquanto a “água ainda esta nos joelhos”.

No entanto, o relatório também aborda outros tipos de ações que não dependem exclusivamente da cooperação entre países, como o reforço da resiliência individual e estatal através de campanhas de educação digital sobre desinformação e informação falsa, ou a promoção de uma maior investigação e desenvolvimento de modelos e tecnologias climáticas com potencial para acelerar a transição energética, com a contribuição dos setores público e privado.

“O mundo não está em um único ponto de inflexão. Está em pontos de múltiplas inflexões.”
Ursula Von Der Leyen, Presidente da Comissão Europeia.

 

 

Como os países mais pobres farão a transição energética?

O Acordo de Paris foi assinado em 2015 na 21ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP21). É um tratado internacional contra as mudanças climáticas causadas pelo ser humano. Seu principal objetivo consiste em combater o aumento da temperatura terrestre provocada pelo aquecimento global.

Na prática, significa impedir o aumento de 2°C na temperatura global em relação à era pré-industrial. O acordo também estimula a criação de mecanismos para diminuir o impacto das mudanças climáticas e a substituição de fontes emissoras de gases do efeito estufa.

Segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) de outubro de 2022, tudo indica que as promessas internacionais feitas até agora para reduzir as emissões de gases do efeito estufa são insuficientes. Com base nas metas nacionais de emissões de 193 países, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês) prevê um aumento médio da temperatura global de 2,5°C acima da média pré-industrial até o fim do século.